domingo, 7 de junho de 2015

Um desencontro, por acaso.

Quarta feira, hora indolente e melancólica das cinco e meia de uma manhã nublada. Choveu úmido e frio na noite outrora sufocante e quente de novembro. Ela caminhava na direção do metrô, os sapatos empapados de água e lama. Pelo menos o metrô lhe parecia um progresso no meio dos tempos decadentes, dava-lhe a sensação de estar em outro país. A decadência em torno a assustava.
Ela se encontrava em uma caminhada apressada e urgente de quem perdera o horário e logo mais perderia a carona para o trabalho. Olheiras profundas se projetavam embaixo de seus olhos cansados. Estava rodeara de rostos que passavam por ela com a mesma rapidez que se iam, apenas mais gente como ela, absortos em sua rotina de correria contra o tempo. Mais um minuto se passou no relógio grande da estação. Na debandada apressada era impossível identificar um rosto ou traço, até mesmo se este fosse muito conhecido. Observadora por natureza, ela pensava em quanta coisa estava deixando passar por seus olhos.
Sua pernada, no entanto, foi interrompida quando seu livro escorregou de debaixo do braço e caiu justamente em uma poça d’água da chuvarada torrencial de ontem à noite. Ela praguejou, mas, antes que fizesse qualquer movimento, um desconhecido o pegou. “Aqui está”, “Muito obrigada” foram as expressões desferidas entre os dois antes que ele seguisse correndo sua maratona e ela finalmente conseguisse chegar ao metrô. Simples assim. Não houve troca de olhares ou amor à primeira vista. Ela teve a sorte de encontrar seu lugar preferido vago.
Agora que chegara, ela tinha tempo de sobra. Olhou para seu livro ensopado e sujo. As próximas duas horas iriam ser extremamente maçantes sem as poesias sujas de Bukowski. Ela pensou no que acabara de acontecer: um momento digno de um filme clichê de romance para derreter corações femininos. Pensou em quantas histórias de amor assim haviam tido início naquela velha estação de metrô. Quantas almas gêmeas já haviam se encontrado por acaso, e quantas almas solitárias ainda esperavam encontrar “a metade da laranja” naquela estação de metrô antiga e úmida¿
Riu-se sozinha ao imaginar a si mesma pedindo em casamento o rapaz que lhe entregara o livro, ali mesmo, interrompendo a trajetória dos dois. Quem se importa com o trabalho¿ Eu acabei de encontrar o amor da minha vida!
Ela suspirou e olhou para o livro encharcado. Em momentos como este, considerava uma benção ter nascido cética assim: “Destino é um conforto para aqueles que não têm coragem de tomar suas próprias decisões.”. Nos filmes românticos, ninguém nunca mencionava quantos destinos haviam sido separados por um desencontro ocasionado pelo trânsito congestionado da metrópole, ou então por causa do corre-corre para o trabalho. Simples assim, um instante perdido e a sua vida toma um rumo diferente. Quantas oportunidades deixamos passar por vivermos absortos em nossas próprias prioridades distorcidas¿

Ela gabava-se por ser considerada uma observadora, nunca deixava nada passar. Apreciar os pequenos momentos era seu dom nato, que, na prática, não servira de nada, pois ela estava atrasada para o trabalho e nem imaginava, mas o amor da sua vida desceu na outra estação.

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