domingo, 7 de junho de 2015

O conforto monocórdio da rotina.

Ela resfolegou de frio e esfregou as mãos a fim de aquecê-las. Abriu o livro que havia reservado para aquele fim de tarde em um banco de praça qualquer. Folheou, folheou, folheou. Usualmente, contos fantasiosos além da realidade a deliciavam em dias melancólicos como aquele, entretanto, naquela tardezinha pacata em especial, ela preferia simplesmente sentar no banco e descansar sem palavras intermináveis esperando para serem postas em contexto e interpretadas em sua cabeça.
Sem sua companhia costumeira, ela sentiu falta do sabor quente e amistoso do café que aquecia suas mãos e seu coração. Seu olhar direcionou-se diretamente para a cafeteria do Seu João, que resolvera fechar mais cedo aquele dia sem se importar em quebrar a rigorosa rotina de Amélie. O que ia fazer ela sem a cafeína que ingeria regularmente todos os dias às 6 horas da tarde ao sentar-se no banco da praça em frente à lagoa para tomar seu café lendo o livro de fantasias que “pegara emprestado” da biblioteca local há muito tempo atrás, e cumprimentar o Sr. Alfredo voltando da feira, ouvir as reclamações veementes da Dona Rosa brigando com seu gato por subir em cima da televisão novamente, observar a menina de cabelos ruivos recolhendo seus brinquedos e fazendo birra para ir embora enquanto sua mãe lhe arrasta pelo braço consolando-a¿ Sem café, tudo isto parecia ser um disparate para ela.
Solitária em um banco de praça quando o sol já se preparava para se por, ela sorriu para o Sr. Alfredo do outro lado da rua que retornava da feira carregando uma sacola de batatas e aspargos para fazer o prato especial de terça-feira. Ele lhe acenou de volta com vivacidade. Logo mais, aproximou-se um vendedor de balas com roupas esfarrapadas lhe oferecendo doces. Parecia que de repente, todos haviam tomado coragem para quebrar a maravilhosa e doce rotina que Amélie apreciava. Ela comprou três balas.
-Para a cliente mais bela do dia. – o vendedor entregou-lhe as balas sorrindo com os olhos para ela.
Uma voz aguda e feroz praguejou atrás dela. Era a Dona Rosa xingando seu gato por mais uma vez dormir em cima da televisão. Amélie sorriu e vociferou baixinho os mesmos xingamentos que Dona Rosa exclamava, pois já conhecia esta fala. Ela olhou no relógio: seis e quinze. Parecia que a menina de cabelos ruivos não aparecera hoje. Amélie perguntou-se se algo acontecera com ela, sentindo-se um pouco desrespeitada pelo compromisso quebrado.
A rotina era algo que dava prazer à ela, assim como ler o final de um livro quando ainda se está no início, ou então assistir o mesmo filme milhares de vezes. Entre um bilhão de pessoas no mundo que preferem viver as emoções de cada momento ao extremo, ela gostava de apreciar as coisas reais da vida, sem imprevistos ou improvisos. Sem mudança de roteiro, apenas a vida sendo o que é: uma rotina sem altos nem baixos, uma constante monótona que tantos tentam fugir, infrutuosamente.
Na verdade, Amélie tentava recriar momentos. Em todas as suas festas de aniversário, ela sempre comprou um bolo de abacaxi, convidou seus avós e sua irmã mais nova, e comemorou jogando damas. As suas duas primeiras festas foram incríveis, o mesmo sentimento de felicidade pura e simples reproduzido duas vezes. No entanto, em sua terceira festa de aniversário, era o mesmo bolo de abacaxi e o mesmo tabuleiro de damas, mas sua avó estava com câncer, e no ano seguinte a padaria que ela sempre encomendou seus bolos fechou. Os bolos de abacaxi nunca mais tiveram o mesmo gosto de infância e felicidade, e um jogo de damas não funciona muito bem com apenas três pessoas, principalmente quando uma delas está deprimida e tem alzheimer.

Desgostosa com a sua falha em recriar momentos, Amélie se contentava com as coisas mais simples que podia controlar, como tardes no parque com o mesmo café, o mesmo livro, no mesmo horário, com as mesmas pessoas ao seu redor. Ela foi embora quando no seu relógio marcaram seis e meia, com o mesmo sentimento de vazio que sentira na sua terceira festa de aniversário.

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