Ela resfolegou de frio e esfregou as mãos a fim
de aquecê-las. Abriu o livro que havia reservado para aquele fim de tarde em um
banco de praça qualquer. Folheou, folheou, folheou. Usualmente, contos
fantasiosos além da realidade a deliciavam em dias melancólicos como aquele,
entretanto, naquela tardezinha pacata em especial, ela preferia simplesmente
sentar no banco e descansar sem palavras intermináveis esperando para serem
postas em contexto e interpretadas em sua cabeça.
Sem sua companhia costumeira, ela sentiu falta
do sabor quente e amistoso do café que aquecia suas mãos e seu coração. Seu
olhar direcionou-se diretamente para a cafeteria do Seu João, que resolvera
fechar mais cedo aquele dia sem se importar em quebrar a rigorosa rotina de
Amélie. O que ia fazer ela sem a cafeína que ingeria regularmente todos os dias
às 6 horas da tarde ao sentar-se no banco da praça em frente à lagoa para tomar
seu café lendo o livro de fantasias que “pegara emprestado” da biblioteca local
há muito tempo atrás, e cumprimentar o Sr. Alfredo voltando da feira, ouvir as
reclamações veementes da Dona Rosa brigando com seu gato por subir em cima da
televisão novamente, observar a menina de cabelos ruivos recolhendo seus
brinquedos e fazendo birra para ir embora enquanto sua mãe lhe arrasta pelo
braço consolando-a¿ Sem café, tudo isto parecia ser um disparate para ela.
Solitária em um banco de praça quando o sol já
se preparava para se por, ela sorriu para o Sr. Alfredo do outro lado da rua
que retornava da feira carregando uma sacola de batatas e aspargos para fazer o
prato especial de terça-feira. Ele lhe acenou de volta com vivacidade. Logo
mais, aproximou-se um vendedor de balas com roupas esfarrapadas lhe oferecendo
doces. Parecia que de repente, todos haviam tomado coragem para quebrar a
maravilhosa e doce rotina que Amélie apreciava. Ela comprou três balas.
-Para a cliente mais bela do dia. – o vendedor
entregou-lhe as balas sorrindo com os olhos para ela.
Uma voz aguda e feroz praguejou atrás dela. Era
a Dona Rosa xingando seu gato por mais uma vez dormir em cima da televisão.
Amélie sorriu e vociferou baixinho os mesmos xingamentos que Dona Rosa
exclamava, pois já conhecia esta fala. Ela olhou no relógio: seis e quinze.
Parecia que a menina de cabelos ruivos não aparecera hoje. Amélie perguntou-se
se algo acontecera com ela, sentindo-se um pouco desrespeitada pelo compromisso
quebrado.
A rotina era algo que dava prazer à ela, assim
como ler o final de um livro quando ainda se está no início, ou então assistir
o mesmo filme milhares de vezes. Entre um bilhão de pessoas no mundo que
preferem viver as emoções de cada momento ao extremo, ela gostava de apreciar
as coisas reais da vida, sem imprevistos ou improvisos. Sem mudança de roteiro,
apenas a vida sendo o que é: uma rotina sem altos nem baixos, uma constante monótona
que tantos tentam fugir, infrutuosamente.
Na verdade, Amélie tentava recriar momentos. Em
todas as suas festas de aniversário, ela sempre comprou um bolo de abacaxi,
convidou seus avós e sua irmã mais nova, e comemorou jogando damas. As suas
duas primeiras festas foram incríveis, o mesmo sentimento de felicidade pura e
simples reproduzido duas vezes. No entanto, em sua terceira festa de aniversário,
era o mesmo bolo de abacaxi e o mesmo tabuleiro de damas, mas sua avó estava
com câncer, e no ano seguinte a padaria que ela sempre encomendou seus bolos
fechou. Os bolos de abacaxi nunca mais tiveram o mesmo gosto de infância e felicidade,
e um jogo de damas não funciona muito bem com apenas três pessoas,
principalmente quando uma delas está deprimida e tem alzheimer.
Desgostosa com a sua falha em recriar momentos,
Amélie se contentava com as coisas mais simples que podia controlar, como
tardes no parque com o mesmo café, o mesmo livro, no mesmo horário, com as
mesmas pessoas ao seu redor. Ela foi embora quando no seu relógio marcaram seis
e meia, com o mesmo sentimento de vazio que sentira na sua terceira festa de
aniversário.
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